Atualizações e Estratégias de Concurso

Prof. André Teles

STJ e os Conflitos sobre Cotas para Pretos e Pardos em Concursos Públicos e Seleções

A política de cotas no Brasil – especialmente para pretos e pardos – continua a gerar debates intensos no meio jurídico e social. Com a aprovação da Lei 12.711/2012 (Lei de Cotas) e posteriores regulamentações, como a Lei 12.990/2014 e a Resolução 203/2015 do Conselho Nacional de Justiça, o sistema de reserva de vagas se consolidou, mas também trouxe novos desafios, frequentemente analisados pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

A Complexidade da Autodeclaração e a Atuação do STJ

O STJ desempenha um papel central na resolução de conflitos relacionados à autodeclaração racial de candidatos e na definição dos limites das comissões de heteroidentificação. Um dos princípios firmados pela corte é que a não homologação da autodeclaração não impede o candidato de continuar disputando uma vaga pela ampla concorrência, conforme decidido no julgamento do REsp 2.105.250 em 2024.

O ministro Sérgio Kukina destacou que a análise fenotípica envolve certo grau de subjetividade e que a exclusão automática do candidato com base apenas na rejeição da autodeclaração violaria o princípio da razoabilidade.

Limites das Comissões de Heteroidentificação

A atuação das comissões de heteroidentificação, criadas para evitar fraudes, também foi objeto de controvérsias. Em julgamentos como o do MS 24.589 e do RMS 54.907, o STJ reafirmou que não se pode criar novas etapas no concurso sem previsão no edital, preservando os princípios da vinculação ao edital, da legítima confiança e da segurança jurídica.

Além disso, o tribunal reforçou que o critério para confirmação da elegibilidade às cotas deve ser baseado no fenótipo – características visíveis como cor da pele e traços físicos – e não na ancestralidade genética, como visto no RMS 69.978 e no AREsp 1.407.431.

O Princípio da Ampla Defesa

Outro ponto relevante diz respeito à necessidade de garantir contraditório e ampla defesa em casos de exclusão de candidatos por decisões das comissões. No RMS 62.040, o STJ afirmou que, mesmo nos procedimentos de heteroidentificação, os candidatos têm direito a apresentar defesa antes de sua eliminação definitiva do certame.

Aplicação das Cotas em Todas as Etapas do Concurso

Em abril de 2024, no julgamento do REsp 2.076.494, o STJ consolidou entendimento de que as cotas raciais devem ser observadas em todas as fases do concurso – e não apenas no resultado final – para garantir a máxima efetividade da política afirmativa. Assim, os candidatos negros devem ter assegurada a reserva de vagas desde as fases classificatórias até a nomeação.

Implicações para o Futuro das Políticas de Cotas

As decisões do STJ não apenas resolvem disputas individuais, mas também influenciam a legislação em vigor. O Projeto de Lei 1.958/2021, em tramitação, incorpora a orientação jurisprudencial sobre a manutenção dos candidatos na ampla concorrência mesmo após a desclassificação na cota racial.

A recente atualização legislativa com a Lei 14.723/2023, que ampliou os grupos contemplados, é reflexo da evolução do entendimento sobre o papel das cotas na promoção da igualdade racial no país.

Conclusão

As cotas raciais representam uma importante ferramenta de inclusão social e de combate às desigualdades históricas no Brasil. Contudo, como demonstram as decisões recentes do STJ, a correta aplicação dessas políticas exige rigor jurídico, respeito aos direitos dos candidatos e a constante vigilância dos princípios constitucionais.

O debate continua, tanto nos tribunais quanto no Legislativo, moldando o futuro das ações afirmativas no país.

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